Em “O Jovem Karl Marx”, somos levados por uma fase lírica e desafiadora na vida de seu biógrafo, um homem que atravessou boa parte do século XIX, desde o seu nascimento, em 1818, em Trier, na Renânia, oeste da Alemanha, fugindo de autoridades e perseguidores, até sua morte, em Londres, arruinado e surpreendentemente convencido do que defendeu ao longo de quatro décadas de militância um tanto utópica pela transformação em que tanto acreditava.
O diretor haitiano Raoul Peck captura essa aura sonhadora de Marx, um espírito verdadeiramente livre, mas sempre em busca de aprovação. Desde as primeiras cenas, podemos notar no roteiro de Peck, escrito com Pascal Bonitzer e Bertina Henrichs, o desejo de revestir Marx com uma camada humana, embora alguns pontos da doutrina em nome da qual ele dedicou sua vida contradigam essa intenção.
Aos 25 anos, Marx publicou artigos no “Rheinische Zeitung” nos quais desacreditava sistemas legais como aquele que garantia aos proprietários de terras o direito de colocar pessoas pobres na prisão se invadissem uma floresta em sua propriedade para coletar madeira podre para servir de lenha, sem arrancar um único galho. Adquirir essas lutas muito justas significava a certeza de que a polícia bateria à porta do jornal, bloquearia as instalações e levaria a equipe para dormir por alguns dias no xadrez.
Peck registra o início do tormento de Marx, obrigado a entrar em exílio em Paris com sua esposa, Johanna von Westphalen (1814-1881), Jenny, e sua primeira filha. As interpretações requintadas de August Diehl e Vicky Krieps permitem entender Marx além da seriedade do materialismo científico.
Na capital francesa, ideias até então conhecidas amadureciam, como a de que a mais-valia era simplesmente o tempo necessário para preparar a mercadoria. O industrial estima seu lucro com base nesse tempo, que é a base do capitalismo. O tempo que um trabalhador gasta produzindo algo – um carro, uma pasta de dente, um arranha-céu, um filme – nunca se traduz em lucro para si, mas para aqueles que o empregam.
Também em Paris, Marx conheceu Pierre-Joseph Proudhon (1865-1809) e Mikhail Alexandrovich Bakunin (1876-1814). Pierre-Joseph Proudhon foi um dos primeiros teóricos anarquistas liberais a acender uma faísca em direções que ainda não haviam sido consideradas. Em uma atuação medíocre, o personagem de Olivier Gourmet também acrescenta uma nova camada ao filme que Ivan Frank, como o russo, não conseguiu alcançar simplesmente por falta de coincidência.
Antes disso, no ponto de transição entre o primeiro e o segundo ato, a viagem de Marx a Manchester, berço da Revolução Industrial britânica, define claramente uma parte importante da natureza narrativa do filme, servindo como uma linha do tempo que examina um movimento de consolidação pessoal século de liberdade. O encontro de Marx e Friedrich Engels (1820-1895), filho do grande capitalista de quem tomou emprestado o nome, foi talvez o eixo do desenvolvimento histórico, ainda que o “Jovem Karl Marx” continue em cartaz no Prime Video. Coisas sobre as quais os livros geralmente não falam.
Stefan Konarska aparece em cenas cada vez mais comoventes com Diehl, como na preparação para o final, enquanto Engels faz sua proposta obscena, aprofundando o vínculo entre os dois que nunca acaba com a divisão natural entre os gênios que admiram. Em 21 de fevereiro de 1848, o Manifesto Comunista saiu às ruas e eclodiram revoltas de classe em toda a Europa Ocidental. A utopia foi finalmente alcançada.